terça-feira, 21 de fevereiro de 2012


Natal no Carnaval

A desculpa para fantasiarmos que é Natal em plena terça feira de Carnaval é a de sempre - a falta de tempo! É a falta de tempo que nos faz recuar no calendário (no do telemóvel, porque os de papel que se usavam dependurar do prego estrategicamente martelado no intervalo dos azulejos da cozinha, onde bebés dentro de tachos ou animais em poses peculiares ilustravam a publicidade aos alumínios e caixilhos do Sr. Matamouros ou à mercearia dos cantos João Mendes, esses já não marcam o nosso tempo...ou a falta dele, para retomarmos o fio à meada) e desta feita, recuamos a dezembro de 2011, pois falta-nos fazer a revisão da 'matéria lida' , desde então.

Tal como o prevíramos em junho, ao abrirmos o precedente de ver o filme em vez de ler o livro, soubemos que repetiríamos o expediente para assim mascararmos a ditosa 'fala de tempo'.
Num mês assoberbado de afazeres mais úteis ou mais inúteis como é o do natal, pois que ouvir as palavras em vez de as lermos surgiu como única forma de nos determos um pouco em algo mais do que embrulhos, laços e chocolate quente.

O nosso presente foi 'biutiful'!

É um verdadeiro murro no estômago este filme, como o são por norma os filmes de Iñarritu. Não se apresenta com as cores dos típicos filmes de natal e,aparentemente, não é uma escolha acertada tendo em conta a época em que o visionámos. Tem laivos de filme violento, duro, metálico, escatológico até (certas cenas levam-nos a desviar o olhar do ecrã pela sua crueza) como só o podem ser os filmes que devassam a humanidade até ao osso, mas apesar disso e por isso até, poderia ser eleito filme natalício por excelência se o natal ainda fosse o testemunho do amor familiar e fraterno que se deveria passar às novas gerações, se o natal ainda fosse o tempo de reflectir em amores incondicionais como o de Uxbal pelos filhos (o presépio revisitado), se o natal de hoje não fosse, cada vez mais, uma paródia aos antigos valores e costumes.
Por isso tudo , e pelo muito que fica por dizer , este momento cinematográfico partilhado em vésperas de natal foi definitivamente... biutiful.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

NOVEMBRO 2011- Eco no verão de S. Martinho
e ... regressámos, como antes se escreveu, por altura do verão de S. Martinho e, porque 'as palavras se contaminam', voltámos para ler e discutir santos, hereges, místicos, crentes e gente de pouca fé, cátaros e templários... e uma vasta lista de perscrutadores de coincidências, leitores de símbolos e números, fazedores de lendas... homens querendo igualar deus (prometeu revisitado) para refazer a história e as estórias da história, encontram-se e perdem-se nesse encontro...
e... sim, do exposto se infere ( sequência muito original!) que a obra que nos trouxe enredados (literalmente) é ambiciosa... é também um Eco de muitas obras que a antecederam, até pelo seu pendor parodístico, inspiradora de outras bem recentes, literariamente menos conseguidas, mas globalmente (com a Internet e o cinema a dar uma ajuda) mais divulgadas. (Não sei se algum fã de Dan Brown e do seu 'segredo' lê este texto, mas se sim e se nunca leu o Pêndulo de Foucault, lamento desapontá-lo, mas o autor americano pouco trouxe de novo, embora, arrisque afirmar, que ser original em literatura é tão improvável como encontrar o Graal).

e... pronto, é isso, segredo revelado... levámos 555 páginas (na edição da Difel) a chegar a este serão detetivesco, consagrado a um pêndulo e a um jogo curioso do 'gato e do rato'.

e...recomenda-se? Absolutamente! Sobretudo porque sendo 3 em 1 (entretém, informa e emociona - leia-se a episódio de infância de Jacopo que inclui um clarim), adequa-se ao tempo de crise e de poupança a que todos estamos 0brigados.

e... inquieta? Se não inquieta pelo menos faz-nos querer ter/ descobrir um 'plano', aliás... todos sentimos perder o norte quando deixamos de fazer planos...

e... perturba? ... «Num certo sentido sim.É por isso que o Pêndulo me perturba. Promete-me o infinito, mas deixa-me a mim a responsabilidade de decidir onde é que quero tê-lo. Assim não basta adorar o Pêndulo onde ele está, é preciso tomar de novo uma decisão, e procurar o ponto melhor.»

e... continuaremos com o nosso 'plano' nada secreto, mas igualmente estimulante, na senda do nosso Graal... a nossa 'quest': desbravar caminhos de leitura pelos trilhos que os autores e os seus jogos de palavras lavram para nós.

e... boas leituras!

E QUANDO NÃO HÁ TEMPO PARA LER... VÊ-SE!

Apesar de estar já distante o verão, voltamos a este ponto de encontro virtual para partilharmos as memórias do texto que nos serviu de pretexto para mais uma reunião, informal e sem ordem de trabalhos, do nosso 'projecto' de leituras, numa canicular noite de Julho...

... O Leopardo, Lampedusa

Não, não substituímos a palavra escrita pela dramatizada, mas abrimos uma excepção porque o sentimento de culpa de irmos a banhos sem dedicarmos um último pensamento, mais cliché, menos cliché , mais ou menos profundo , ao móbil dos nossos serões literários - a literatura, a obra e as palavras em que se sustentam os livros - corroer-nos-ia. Assim, munidos de pipocas (só são intoleráveis nas salas de cinema, mastigadas desalmadamente por quem foi ver o filme só por elas e não pela trama) e de curiosidade assistimos, na primeira fila, ao livro de Lampedusa feito filme por Visconti.

E gostámos! E, muito provavelmente, esta será apenas a primeira excepção de muitas outras!

Pese embora nos mereça mais do que o apontamento que aqui fica, não nos demoraremos em comentários... vai longe Julho.

Voltámos noutro verão...o de S. Martinho...

Até já!





quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Adoecer ou não adoecer? - eis a questão.

Elizabeth Siddal (musa/ modelo dos pintores pré- rafaelitas)


Quando escolhemos Adoecer para pretexto de mais um serão de ‘falatório literário’, o facto de ser o mais recente romance de Hélia Correia era tudo o que sabíamos sobre o dito. Hélia Correia correspondia a dois requisitos importantes: ser mulher ( critério que tem presidido às últimas escolhas bibliográficas, e qualquer semelhança com o sistema de quotas que garante a presença de mulheres na vida política do país não será pura coincidência, mas sobre machismos/ feminismos e outros ‘ismos’ discutiremos depois) e ser portuguesa ( não querendo persistir na questão do género, sublinhe-se que é a primeira escritora portuguesa a que nos dedicamos).

Às primeiras páginas este Adoecer não entusiasma, e não se sabe bem identificar a razão. Não é propriamente o início tumultuoso da narrativa feita de constantes analepses e prolepses; não é bem a genealogia dos implicados cujas relações familiares e sociais confundem a princípio; nem tampouco o uso da língua e dos tropos da retórica que a escritora utiliza no exercício ficcional. E, no fim de contas, que é como quem diz da leitura, é talvez essa estranheza que, não sendo imediatamente encantatória, acaba por nos cativar. É um romance que exige paciência, concentração, tempo, que é algo que cada vez mais escasseia, ao ponto de termos começado a ler Adoecer em Março e só três meses depois conseguido adentrarmo-nos na obra o suficiente para trocarmos opiniões.

O efeito que a leitura desta biografia romanceada sobre a figura de Lizzie Siddal tem em nós pode ser ilustrado pela seguinte citação: «As chuvas deslizaram pelas pedras como se as respeitassem. Com excepção da que assinala Lizzie Siddal. O texto que o buril afundou nela ganhou alguma qualidade orgânica. Águas e águas se depositaram, chamando musgos para a reprodução . Está deitada , na terra, a sua laje, muito verde, marcando uma diferença na família que nunca foi sua».

Assim acontece connosco, que ao darmos à obra a atenção e o tempo que nos exige (e merece) nos vamos afeiçoando à estranheza que a personagem encerra. E porque marca a diferença numa sociedade, numa irmandade artística (os Pré-Rafaelitas) e numa família, e em todos esses diferentes contextos é mais ou menos subtilmente hostilizada, sentimo-nos quase como Ruskin, obrigados a protegê-la e a admirá-la. O misterioso fascínio que Lizzie exerce sobre aqueles que a rodeiam encontra paralelismo no poder de atracção que Adoecer exerce sobre o leitor: inicialmente tímido e discreto, mas que gradualmente nos prende e se aloja qual excrescência fúngica na pedra onde as águas se depositaram.


Boas e 'doentias' leituras!

terça-feira, 12 de julho de 2011


Memórias das Memórias de Adriano


A obra inaugural das leituras que projectamos para 2011 não podia ter sido mais acertada. Yourcenar convida-nos a revisitarmos um tempo e um espaço de que ouvimos falar nos primeiros anos do estudo da História, na escola. A cultura greco-romana; a grande, despótica e promiscua família dos deuses, elaborada à imagem e semelhança dos homens; os humores , amores e desamores dos patrícios romanos; as lutas fratricidas pelo poder; a importância de um certo olhar estético; o culto do belo e o ideal hedonista; a morte, de tudo isto nos dá conta Adriano ao rememorar a sua biografia como se fosse um espectador da mesma e não o principal actor.
É , de facto, esse o propósito do projecto literário de Yourcenar, tal como a autora nos dá conta :
«Tomar uma vida conhecida, acabada, fixada (tanto quanto é possível sê-lo) pela História, de forma a abranger num só olhar toda a curva: mais ainda, escolher o momento em que o homem que viveu essa existência a avalia, a examina e chega a ser por um instante capaz de a julgar. Fazer de maneira que ele se encontre perante a sua própria vida na mesma posição que nós.»

No caso dos membros deste humílimo clube, a posição a manter é de expectativa até ao próximo serão, desta feita na companhia de uma escritora portuguesa.

Até já!



quarta-feira, 30 de março de 2011

Pelos Trilhos de Adriano


Brevemente actualizaremos o blogue com as observações sobre

esta obra magistral de Yourcenar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Palavras de Mulheres


Reparámos, por acaso, que em mais de um ano de conversas nocturnas sobre livros e autores, não tínhamos ainda discutido qualquer obra escrita por uma mulher. A fim de repararmos tal lacuna, resolvemos adoptar como critério de selecção de futuras obras o da sua autoria. Assim, eis-nos num frio serão de Dezembro, debruçados sobre o romance inaugural do desfile de muitos assinados por mulheres escritoras.

HERTA MULLER - Tudo o que eu tenho trago comigo

Dezembro de 2010

Concordámos que esta obra não será a leitura mais 'adequada' à quadra natalícia, onde cabem melhor contos senão felizes, pelo menos inspiradores, daqueles que deixam espaço ao sonho e à esperança.
Mas é de crueza, de frialdade e da precariedade da vida de que Herta Muller nos dá conta neste seu romance.
Onde? Num campo de trabalho russo.
Quando? No pós-guerra.
Quem? Um jovem pertencente à minoria alemã da Roménia.
O Quê? Enfrenta o seu destino.
Como? ... Como sempre frisamos, os comentários e as citações que aqui partilhamos pretendem suscitar a curiosidade, não resolver a leitura; assim, o 'como' desta história é o que cada leitor descobrir, porque nunca descobrimos exactamente o mesmo.

De qualquer forma, e em jeito de síntese, a leitura de Tudo o que eu tenho trago comigo deixa-nos um sabor metálico na ponta dos dedos, um frio siberiano na pele, um nó no estômago e uma ideia algo incómoda - o horror pode gerar beleza. Mas isso só alguns espíritos - como o de Herta Muller - conseguem.


«Peguei nele na mão e acariciei-lhe a barriga. Ele bufou e mordeu-me o dedo mindinho. Não largava, Então, vi sangue. Então, apertei o polegar e o indicador , acho que com toda a força, e foi no pescoço. (...) O gatinho, porque estava morto, tinha-me apanhado a matar. Que não tenha havido intenção, só piorava as coisas. A ternura monstruosa enreda-se na culpa de forma diferente da crueldade intencionada. Mais profunda. E mais longamente. (...)


A citação ilustrará (ou nem por isso?!) as sensações orgânicas descritas anteriormente para caracterizarem esta experiência de leitura, mas caso não bastem registam-se os títulos de alguns capítulos do romance: 'Cimento'; 'As mulheres da cal'; Das pessoas severas'; Choupos negros'; 'Do anjo da fome'; 'Aguardente de carvão de pedra'; Do carvão'; 'Da areia amarela'; 'Tijolos de escória'; 'Dos tédios'; A gente vive. Vive só uma vez'; 'O beijo de lata'; etc.

No entanto, também há um assomo de humanidade de quando em vez, por mais duro e agreste que seja o contexto onde essa humanidade acontece: «Uma pessoa pode transformar-se num monstro quando deixa de chorar. O que me impede de sê-lo, se é que já não o sou há muito tempo, não é muita coisa, quando muito a frase: Eu sei que voltas.»

Voltaremos também nós, já em 2011...
Até lá, boas leituras! Bom ano novo!




segunda-feira, 27 de dezembro de 2010


Os Filhos da Meia-Noite,
Salman Rushdie

29 de Setembro-
12ª 'Leitura'

Sabíamos ser necessário um fôlego maior para ler aquela que é considerada a obra prima de Rushdie e uma das mais importantes da contemporaneidade literária (foi Prémio Booker em 1981; Booker dos Bookers em 1993, prémio com que voltou a ser distinguida após auscultação aos leitores em 2008). Assim, levámo-la na bagagem de férias de verão e foi com ela que assinalámos a rentrée do nosso 'clube'.

A noite estava ainda morna, no final de Setembro, pelo que à volta da mesa da esplanada e sob o efeito da cafeína, fomos relembrando os episódios fantásticos da vida de Saleem Sinai e da sua família, entrelaçados com a História da própria Índia. Viajámos pelo exotismo dos lugares descritos; contemplámos a mestria do autor no domínio dos materiais da escrita; o exercício metaficcional; a pretensão concretizada de usar o código de modo singular; a forma peculiar de manipular as coordenadas espacio-temporais, ao ponto de tornar próximas e familiares realidades culturalmente tão distantes como aquelas da Índia e do Paquistão:
Um nariz-aspirador? Lirismo em torno de uma 'bosta'? Um jogo intitulado 'acertar-na-escarradeira'? Um herói com dons telepáticos que é também uma espécie de 'bobo'?
E a lista de 'excentricidades' podia alongar-se em uníssono com a voz do narrador:
«a promessa de exotismos futuros sempre me pareceu o melhor dos antídotos para as decepções presentes!»

Também nós nos poderíamos alongar no comentário à obra magistral de Rushdie, mas como sempre fazemos questão de frisar, as notas que aqui partilhamos servem apenas como pretexto para evidenciar o trabalho operado sobre e com as palavras, o impulso criativo, o 'engenho e a arte' dos autores e criadores literários que vamos projectando ler.

«E aprendi a primeira lição da minha vida: ninguém pode olhar o mundo de frente se tiver os olhos constantemente abertos»

Até à próxima ... página.

Boas leituras!

domingo, 26 de dezembro de 2010


'E se perdêssemos a face humana? ou
o Complexo de Édipo revisitado'
Junho de 2010 -
11ª Sessão de leituras 'projectadas'

É com considerável hiato temporal desde o serão dedicado à leitura do Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar que registamos aqui as impressões trocadas sobre essa obra singular de Mishima. Por isso, talvez o relato desse par de horas corresponda melhor ao comentário subentendido do que ao comentário real. Quer isto dizer que onde a memória falhar, acudirá a ficção.
Assim, 'se bem me lembro', era uma noite 'pós-são joanina' e Mishima foi servido muito ocidental e 'alentejanamente' em prato raso ornamentado com secretos de porco preto e 'baquicamente' acompanhado. Cumprindo a tradição que a época exige 'homenageámos' os santos ditos populares, degustando a fêvera do suíno e tentando chegar ao tutano do romance de Mishima. Neste, apesar da forte presença dos códigos orientais da honra, da disciplina e da ordem, consegue-se extrair aquele sabor agridoce , intemporal e transversal às diferentes tradições culturais, no que diz respeito à descrição dos acessos de cólera que instigam a imaginação dos adolescentes de qualquer parte do mundo, contra os adultos (no caso, o adolescente é um jovem órfão de pai que vai compilando as fraquezas do candidato a seu padrasto, que é então o adulto 'bode -expiatório' dos «complexos de inferioridade, aspirações não realizadas, frustrações e ressentimentos» dos pais e dos adultos em geral).

A narrativa centra-se na figura de um adolescente , Noboru, e do bando a que pertence , cujo objectivo é lutar contra aquilo que os torna essencialmente humanos: a paixão e suas ambiguidades.
Desapaixonarem-se, perderem a afectuosidade, eis o propósito dos adolescentes que aspiram a conseguir instaurar uma nova ordem que ponha cobro ao caos social e ético vigente, de modo a que o ser humano jamais sinta infelicidade, solidão ou desapontamento... nem o seu contrário: «ficar curioso seria visto como uma estupidez, uma vez que estavam a praticar a 'ausência de paixão absoluta'.»
Sucintamente, a personagem central é-nos revelada nos seguintes traços: «Aos treze anos, Noboru estava convencido do seu próprio génio (cada um dos outros do grupo sentia o mesmo) e tinha a certeza de que a vida consistia em alguns símbolos e decisões simples, que a morte ganhava raízes no momento do nascimento (...) que a reprodução era uma ficção; logo a sociedade era também uma ficção; que os pais e os professores, por serem pais e professores, eram culpados de pecados terríveis. Logo, a morte do seu pai quando ele tinha oito anos, fora um incidente feliz, algo de que estar orgulhoso».

No fundo, Mishima explora as contradições da alma humana, neste romance polarizado pelos adolescentes que recorrem a 'rituais de passagem' da infância para a idade adulta, sacrificando o outro pólo - um marinheiro caído em desgraça aos olhos cruéis e desapiedados dos jovens, cuja agilidade intelectual sem o freio da experiência de vida conduz a conclusões 'arrepiantes' como as que se transcrevem, fundamentando a utilidade da brasa que a sabedoria popular evoca naquele adágio que recomenda que se guarde o melhor tição para o mês de S.João:
«Se não agirmos agora, nunca seremos capazes de roubar, ou matar, ou fazer qualquer das coisas que testemunham a liberdade de um homem. Acabaremos a vomitar mentiras, passaremos os dias a tremer de submissão, no compromisso e no medo (...) e um dia casamo-nos e temos filhos, e depois tornamo-nos pais, a coisa mais odiosa que existe à face da terra!»

Bem... a adolescência é só uma fase...passa, certo?!

Boas leituras...populares, santas ou profanas, mas , preferencialmente, apaixonadas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald



27 de Maio



"Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado."



A trama de O Grande Gatsby pode resumir-se de forma muito simplista e , por isso, redutora (daí ser imprescindível ler os livros e não os resumos, notas de rodapé ou comentários) à perseguição de um sonho - um idílio amoroso- por um homem (Gatsby), que ancorado ao passado, a um amor que a memória sublimou, quer, agora, pela ascenção social entretanto granjeada, reatar.

Gatsby exerce um fascínio particular na sociedade de Long Island, que atraída pelo brilho das festas oferecidas na sua mansão, soberba dirão uns, algo kitsch dirão outros, acorre em bandos ávidos de projecção social, embora pouco saibam quem é , afinal, o anfitrião.

Estamos perante a crítica à sociedade fútil e oca dos 'roaring twenties'; à vida mundana da aparência e dos códigos sociais que se sobrepõem ao amor, à justiça e à nobreza de carácter; à frieza com que a burguesia endinheirada despreza esses ideais em troca da comodidade e do luxo que os dólares compram.

A voz crítica mais audível na obra é a do narrador - Nick Carraway, que ao ir viver para a casa vizinha da mansão de Gatsby vê os seus planos - « tinha a sublime intenção de ler muitos outros livros mais (...) e o que eu ia fazer agora era reintroduzir todos esses velhos hábitos na minha vida, convertendo-me de novo no mais limitado dos especialistas, o 'homem esclarecido'» - interrompidos.

Aproveita ainda o impulso filosófico para reforçar que «não é mero epigrama - ao fim e ao cabo, somos muito melhor sucedidos quando vemos a vida de uma única janela.»


Contudo, nós, leitores convictos, não comungamos literalmente desta perspectiva (embora saibamos que descontextualizá-la seja injusto), por isso, continuamos, paulatinamente, a projectar leituras para não ficarmos confinados à nossa única janela.


Assim, recomendamos, muito, esta obra de traços autobiográficos de Scott Fitzgerald para que se possa subir «acima das árvores (...) e uma vez lá em cima, mamar da teta da vida, bebendo de um trago o incomparável leite do prodígio (..)»



CHEERS!

domingo, 23 de maio de 2010

Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, Urbano Tavares Rodrigues
24 de Março

Em Março, projectámos ler a mais recente obra de um escritor nosso conterrâneo que, apesar de celebrar o Alentejo em muitos dos seus textos, a ele não se restringe, como o evidencia a novela sobre a qual recaiu a nossa escolha literária para este mês. Referimo-nos a Urbano Tavares Rodrigues e à sua novela de 2007 - Os Cadernos Secretos do Prior do Crato. Nela, o autor ficciona em torno dos dados biográficos que recolheu sobre essa figura singular da nossa História - D. António, Prior do Crato, pelo qual revela um enorme fascínio.

«Creio que desde sempre me fascinou a rica e complexa personalidade do herói de tantas batalhas perdidas que foi D. António, prior do Crato, por dois anos efectivamente rei de Portugal (...) Não é apenas um cavaleiro sem temor e um diplomata em defesa da sua causa nas cortes de França e Inglaterra. É um homem perdido por mulheres, garboso, sensual, que dificilmente resiste à beleza de um olhar, à tentação de um corpo voluptuoso. Para mais, é um homem que pensa e sente, que tem a cultura de um humanista e as interrogações, os remordimentos de consciência de um ser sensível, de um crente que mandou o hábito às urtigas, escusando-se ainda jovem ao compromisso de celibato, mas sem resolver definitivamente o diálogo que, mesmo em meio das suas lascivas experiências, sempre manteve com Deus».

Eis o herói da novela, tal como o apresenta o autor no posfácio da mesma.

Confessamos que muito nos deleitou a leitura em registo autobiográfico da vida política, sentimental e religiosa do Prior do Crato, ainda que por razões aqui não cabem esmiuçar; e que foi um dos serões literários em que mais nos divertimos. Fosse pelo efeito da flute com que o nosso anfitrião ( obrigada Eduardo) faz acompanhar o doce predilecto da ala feminina do 'clube', fosse pela boa disposição que a prosa do Urbano Tavares Rodrigues causou, o que é certo é que terminámos um dia longo com um largo sorriso, embora alguém insistisse em citar a frase de abertura da obra: « A ninguém darei a ler este caderno, que comecei a escrever nem sei porquê».

Há obras assim... lêem-se nem sabemos porquê! Mas , aproveitando , de novo, a boleia do Prior do Crato juramos como ele que não voltaremos «a praticar os mesmos actos, quando de antemão sei que os repetirei com prazer».

Boas leituras, de preferência projectadas com prazer!

Siddartha, Herman Hesse

3 de Fevereiro


É estranho escrever sobre um livro que se quer ‘rio’, volvidos três meses do serão dedicado à sua leitura. Poderão as águas do mesmo rio banhar-nos duas vezes? Veremos… E se não conseguir reportar fidedignamente o clima daquele serão de Fevereiro, nem reproduzir as opiniões que genericamente foram partilhadas sobre esta obra de Hesse, é porque não soube escutar, pois tal como diria Heraclito que tão a propósito de rios é convidado para compor o ambiente, «se não sabe escutar, não sabe falar».


Não temos a pretensão de termos sabido ‘escutar’ Siddartha, por isso, não alvitramos que lição há a tirar desta obra (até porque cada um tira de cada livro senão o que quer, o que pode) que, em subtítulo, se apresenta como ‘um poema indiano’.
Concordamos que é meritória de tal título, dado o trabalho poético encetado pelo autor sobre princípios filosóficos e éticos que , como tal, tornam a obra num ícone literário transversal às diferentes gerações de leitores, unidas pela identificação com o anelo de Siddartha: a procura de respostas às dúvidas existenciais que assaltam o homem desde sempre.


Resumidamente, Siddartha é um jovem brâmane que decide abandonar o lar
paterno à procura de viver a vida que, mantendo-se em casa, só aprenderia nos livros.

Dúvida 1: A vida será como a que vem descrita nos romances?
Estamos em crer, com base num ‘saber de experiência feito’, que a realidade supera a ficção, mas esta discussão sobre se é a arte que imita a vida ou vice-versa é antiga e, se até hoje irresolúvel, por nós assim continuará.

Dúvida 2: Podemos prescindir dos ‘mestres’? Haverá de facto um ‘deus’ dentro de nós?
Aqui, o ‘poema indiano’ é peremptório em nos afiançar que sim, aliás, essa é a tese da obra. Assim, podemos ler: «Tens dentro de ti, em todos os que se transformam, um Buda oculto para venerar», e justifica a sua pouca fé nas doutrinas: «Posso amar uma pedra (…) mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras. Talvez seja isto que te impede de encontrares a paz , talvez sejam as palavras em excesso.»

Alguns dos leitores presentes não estiveram em total sintonia com esta ideia de que cada um de nós encerra um deus, que em si mesmo deve procurar consolo e orientação, de si mesmo assacar responsabilidades quer pelo cosmos quer pelo caos que as suas decisões causam. Alguém frisou que por incapacidade, inércia ou pelo hábito herdado de geração em geração, há muita gente, a maioria até, que não encontra em si essa força, esse rio impetuoso que «aspira a muitos objectivos, à queda de água, ao lago, aos rápidos, ao mar, e todos os objectivos eram alcançados e a todos eles se seguia um novo objectivo».
Toda essa gente necessita de se inspirada. Por isso, as doutrinas, os mestres, os ‘gurus’ e demais ‘iluminados’ ressurgirão ao longo dos tempos como relicário da esperança e da fé dos homens, ao fim e ao cabo, em si mesmos, ainda que tomando uma ínfima parte pelo todo, ainda que disso pouco se apercebam.
No entanto, abrimos espaço para o contraditório citando Siddartha: «Para cada verdade, o contrário é igualmente verdade.»

Dúvida 3: Até onde podemos chegar seguindo o ‘rio’ que corre dentro de nós?
De uma forma muito sumário e simplista, chegaremos até nós mesmos, ao nosso âmago. Seguirmos o rio é a viagem que nos leva de nós a nós e, por conseguinte, aos outros. O mesmo rio que escuta, é o que nos ensina a escutar, a ter paciência e que nos ensina o ‘silêncio’(a lembrar-nos essa personagem singular do romance de Mia Couto – Mwanito, o Afinador de silêncios, e talvez agora se perceba melhor porque terá Mia convocado H. Hesse no intróito do seu Jesusalém). No rio escutavam-se todas as vozes fundirem-se numa só; no rio estava o ‘mundo’, a totalidade.

Síntese - Enquanto procuras nunca conseguirás encontrar:

«Quando alguém procura (…) pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura (…) Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos.»

Erguemos o nosso cálice a essa liberdade. E fazemos votos para que também nós, que por aqui vamos projectando leituras, possamos encontrar nas palavras dos outros aquelas com as quais consigamos ser ‘rio’, e que a ‘nossa’ grandeza não se veja no «falar ou no pensar, apenas no agir, no viver».

Que os nossos olhos vejam para lá do que procuram…



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

1ª 'leitura' de 2010:

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

16 de Dezembro
JESUSALÉM , Mia Couto

«Este é o país derradeiro e vai-se chamar Jesusalém.»
(p.42)


- Os cantos –

Decidimos encerrar 2009 com a leitura de uma prosa que nos deixa sempre com o travo da poesia na ponta dos dedos, com os quais muitos de nós temos a ousadia e o atrevimento ( segundo alguns dos membros do projectoler) de marcar os cantos das páginas que igualmente nos marcam.
Jesusalém é a ‘prosa mágica’ sobre a qual conversámos no nosso último encontro, dia 16 de Dezembro. Inicialmente, também o mais recente romance de Mia Couto sofreu ‘tratos de polé’ nos cantos, mas tornou-se rapidamente evidente que quase todas as páginas do livro seriam submetidas a tal ‘injúria’, pelo que entre um post-it e outro; de sublinhado em sublinhado e já com a ajuda das pratas dos mon-chéris adventícios, fomos destacando os momentos mais memoráveis de Jesusalém, que à semelhança dos seus antecessores na lista bibliográfica do respectivo autor, tem no reinventar lírico da língua portuguesa a sua personagem principal.

- As citações –

Pese embora seja muito redutor tomar a parte pelo todo, e correndo o risco de passar a ideia de que esta obra de Mia Couto mais não é do que uma colectânea de clichés (seria uma conclusão muito injusta e precipitada), partilhamos convosco os ‘cantos dobrados’:
p. 40 - «Esperas, É isso que a estrada traz. E são as esperas que nos fazem envelhecer.»
p. 62 - «Mulheres são como ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.»
p. 143 - «É isso que essas negras têm que nunca poderemos ter: elas são sempre o corpo inteiro. (…) todo o seu corpo é mulher, todo o seu tempo é feminino. E nós, brancas, vivemos numa estranha transumância: ora somos alma, ora somos corpo. Acedemos ao pecado para fugir do inferno. Aspiramos à asa do desejo para, depois, tombarmos sob o peso da culpa.»
p. 146 - «Uma terra é nossa como uma pessoa nos pode pertencer: sem dela nunca tomarmos posse.»
p. 151 - «Os homens não olham as mulheres que acabaram de amar porque têm medo. Têm medo do que podem encontrar no fundo dos olhos delas.»
p.255 – «Porém, se temos que viver na mentira que seja na nossa própria mentira (…) o mundo termina quando já não somos capazes de amar (…) Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser curta e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.»

Outras citações seriam mais ilustrativas da peculiar apropriação que Mia Couto faz do código linguístico (desde a escolha dos nomes das personagens Mwanito, afinador de silêncios; Vitalício Silvestre; o Tio Aproximado; Zacarias Kalash; a jumenta Jezibela; passando por tantos outros ‘achados’conseguidos pela mestria com que o autor joga com as palavras), mas suspeito que o género de quem escrevinha estas linhas influenciou a escolha.

- As mulheres-

Por falar em género, alguma crítica tem evidenciado que este é um romance sobre mulheres; diríamos que se trata de uma espécie de tributo que sucede a dois níveis: por um lado, aquele que é prestado pelo próprio autor a mulheres poetas que inspiram cada um dos capítulos – Sophia de Mello Breyner Andresen; Hilda Hilst; Adélia Prado e Alejandra Pizarnik - , por outro lado, aquele que o próprio enredo tece ao colocar a mulher no lugar de ‘ilha’ (um dos poemas citados refere esse topos clássico de associar a figura feminina à condição de ilha), distante, isolada, mas sempre objectivo da viagem dos homens de Jesusalém: iniciática para uns; de esquecimento e penitência para outros. Uns a quererem alcançá-la, outros na viagem de retorno, a tentar fugir dela. Será tal dupla empresa – alcançar/ esquecer a mulher (ou a ‘ilha’) – alguma vez conseguida? Parece ser esta a questão síntese que a obra coloca, antecipada até pela citação de Herman Hesse que descerra o pano sobre Jesusalém:
«Toda a história do mundo não é mais
que um livro de imagens reflectindo
o mais violento e mais cego
dos desejos humanos: o desejo de esquecer.»

- Nota de rodapé –
Não sabemos se há alguma relação misteriosa entre as palavras e se elas se ‘contaminam umas às outras’, ou se, simplesmente, se trata de uma coincidência, mas o que é facto é que , em Setembro, quando listámos as obras que projectávamos ler nos meses sucessivos, e ainda sem conhecermos a obra de Mia Couto, optámos por dedicar Janeiro à leitura de Siddhartha, precisamente da autoria de… Herman Hesse, o autor da citação anterior!
Deixamos, então, como T.P.C., a reflexão sobre os laços que as palavras tecem e os sempre renovados votos de boas leituras, neste caso do romance de maturação dos artifícios criativos de Mia Couto.
«A poesia é uma doença mortal.» (p. 151)
Nota bibliográfica: COUTO, Mia. 2009. Jesusalém. Lisboa: Caminho.

domingo, 3 de janeiro de 2010

28 de Outubro
Cem Anos de Solidão
G.G. Márquez


O projecto de ler Cem Anos de Solidão não foi novidade para nenhum dos presentes no serão de Outubro, pois todos havíamos, anos antes, ‘testemunhado’ as peculiaridades e peripécias da família Buendía.
Curiosamente, todos concordámos que tínhamos memória do impacto que a obra causara aquando da primeira leitura, de como nos persuadira a descobrir mais de Gabriel García Márquez, mas pouco tínhamos retido do emaranhado genealógico dos Buendía, como se a nós também sucedesse um processo de encantamento semelhante àquele a que Macondo está condenada: «pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens» (p. 327). A nossa vantagem, relativamente a Macondo e aos seus fundadores, é que se as «estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra» (p. 328), nós, leitores, teremos sempre mais uma oportunidade sobre o trabalho magistral, reforçamos, de encantamento, que G.G. Márquez conseguiu com este romance.


O ‘realismo mágico’ em Cem anos…

Numa breve alusão ao carácter encantatório do registo de Cem anos…, elucide-se que a prática ficcional de apresentar os grandes temas sociais envolvidos numa aura onírica, condimentados com os traços fantasiosos das superstições, das lendas e mitos arquetípicos, se denomina, genericamente, por ‘realismo mágico’.
Esta feição mais ‘fantástica’ de uma literatura de carácter ainda assim social e denunciadora da condição humana em certas comunidades, sobretudo praticada pelos autores latino-americanos (Marquez, Jorge Luís Borges, Cortázar), conquistou grande popularidade na segunda metade do século passado, contaminando gerações sucessivas de autores de diferentes latitudes, entre eles, Gunter Grass, Italo Calvino e Salmon Rushdie. (Remetemos para a obra Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina, de Mário de Carvalho, já lida no nosso ‘clube’, como exemplo de um romance português tocado pela técnica ficcional em causa).


Cem anos… – um romance de amor

Foi o próprio autor que assim definiu a sua obra: «Descobri, ao acordar, que tinha maduro no coração o romance de amor que havia ansiado escrever há tantos anos», urdido pelo entrelaçar das obsessões, milagres, dramas, relações incestuosas e/ ou adúlteras, revelações e condenações da família Buendía.
Não cabe neste espaço o muito que há a comentar sobre este romance, mas não podemos deixar de destacar como elemento unificador do mesmo o efeito da circularidade do tempo: «e mais uma vez estremeceu com a confirmação de que o tempo não passa, como ela acabava de admitir, mas que andava às voltas.» (p. 265)
A sensação de circularidade temporal, corroborada pelo constante fazer e desfazer dos peixes de ouro do Coronel Aureliano ou do bordado de Amaranta - «Poderia dizer-se que bordava de dia e desbordava durante a noite, e não na esperança de, dessa maneira, derrotar a solidão, mas sim exactamente o contrário, para a manter» (p. 207) - (num esforço a lembrar o de Penélope), acaba por conceder à obra um halo de intemporalidade que a distingue com a representação do mito e da história, da tragédia e do amor de toda a humanidade.


Nota bibliográfica: Márquez, Gabriel García. (2000). Cem Anos de Solidão. 15ª. edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote.











segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Próximo 'capítulo':
o realismo mágico de G.G. Márquez



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Saramago por Umberto Eco

Registamos, abaixo, o link para o jornal El País, remetido por um dos membros do clube ( André, obrigada), onde poderá ler o artigo de opinião de Eco sobre o 'nosso' Nobel da literatura.
É verdade que exige um certo esforço de tradução, mas presumimos que para a maioria dos leitores raianos, e não só, seja acessível. De qualquer forma, em caso de dúvida sobre alguma expressão, disponibilizamo-nos para tradução livre... muito livre.
Poderá, ainda, ler os comentários dos leitores espanhóis e descobrir o grau de
anti/ simpatia que Saramago (e também Eco) desperta(m) em 'nuestros hermanos'!
Enfim... a minha avó dizia: 'De Espanha nem bom vento, nem bom casamento!'
Saramago discordará, por certo... Afinal, por mais fortes que soprem os ventos, em Espanha encontrou Pilar onde se acoitar!



Boas Leituras!


http://www.elpais.com/articulo/opinion/bloguero/llamado/Saramago/elpepiopi/20091006elpepiopi_11/Tes

domingo, 27 de setembro de 2009


21 de Setembro –
O Conde d’Abranhos



Uma ‘rentrée’ nunca vem só!

Na véspera do Outono, uma semana após o início das aulas e a meio da campanha eleitoral, também nós regressámos às leituras, esmiuçando (sim, confessamos que a maioria dos membros do nosso ‘nano micro mini’ clube de leitura decidiram o sentido do voto consoante a prestação dos diferentes candidatos no programa que os ‘Gato Fedorento’ apresentam, diariamente, na SIC) O Conde d’Abranhos, obra capital de Eça de Queiroz no que ao uso da ironia e da sátira concerne.

Juramos que não foi intencional esta escolha literária, pois quando decidimos ler “a mais contundente crítica romanceada (?) da intriga política constitucional” (J.Saraiva e O. Lopes) nada fazia supor que tal só acontecesse agora, nos pós ‘silly-season’ eleitoral. O nosso primeiro post prova a nossa inocência!

Como estamos a publicar estas linhas no dia de todas as reflexões, não iremos para além da análise da obra em causa e qualquer paralelismo com a actualidade política será mera coincidência!

Não podemos ler O Conde d’Abranhos sem ter em conta que o mesmo é, em primeira instância, uma paródia a um género ‘clássico’ – o panegírico
[1]. Como tal, a biografia de Alípio Abranhos é-nos relatada pelo seu secretário – Z. Zagalo – narrador de dupla-face: aparentemente, o admirador embevecido e incondicional do Conde; essencialmente, a voz subtil da crítica à sua falta de carácter, personificando assim o ‘carrasco’ mavioso, tal como o entende João de Barros (ver nota de rodapé).

E eis que temos um Alípio oriundo de famílias humildes, instruído em Coimbra graças à fortuna da madrinha abonada, mas que renega as origens, envergonhado da rudeza dos modos paternos face aos tiques requintados da burguesia de quem, por força da ambição política, se torna conviva assíduo. Consegue com essa intimidade a conveniência de um casamento que lhe dá título e reconhecimento social e, apoiado pelas novas e influentes amizades, inicia um percurso que o levará ao poder.


Porque é no ‘circo político’ que o Conde mais se destaca, deixemos o rol de exemplos que Zagalo nos concede sobre a sua conduta (i)moral, para citarmos os momentos mais elucidativos quanto à sua ética:

- sobre o povo: «porque se há-de combater um monstro invencível, quando é tão simples iludi-lo»

- sobre a arte de ‘iludi-lo’ I: «Tal é a tradição humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um país com o aplauso do cidadão e em nome da Liberdade!»

- sobre a arte de ‘iludi-lo’ II: «Não podemos dar ao operário o pão da terra, mas obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no céu banquetes de Luz e de Bem-aventurança!»

- sobre a arte de ‘iludi-lo’ III: «Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente soberania ao Povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito. E quanto ao seu proveito…adeus, ò compadre!»

E, de facto, o ‘nosso’ Alípio Abranhos chega ao poder, embora ‘virando a casaca’, ou seja, mudando de partido, porque isso lhe permitia trotar para Belém, «repoltreando-se nas almofadas do poder!» Não hesitou em «passar-se com as suas armas da eloquência e a sua bagagem de saber para o campo inimigo. Ia fazer-se oposição!»

Explica-nos Zagalo que muito injustamente a «este grande acto político foi chamado uma indecente traição. Nada mais absurdo. Pergunto eu: que é trair? É abandonar os ideais de que se serviram, e passar, sem razão, para os ideais opostos que até aí se combatiam. (…) Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideias opostos?»

E o que se segue é a mais divertida lista de argumentos que tentam provar que não havia nem em Religião, nem em Moral, nem em Economia Política, nem em Administração, nem em Pedagogia qualquer diferença entre um e outro partido!

Afinal, e como um dos nossos membros frisou, não é de hoje que os partidos políticos são ‘uma pequena família incestuosa’!

O mais notável é que Alípio Abranhos conseguiu tornar-se ministro, embora tivesse sido, e segundo o seu fiel (?) secretário, um «avaro intelectual» por nunca ter exteriorizado as muitas ideias que, com certeza, tinha!

Após a troca de impressões sobre o magistral uso da ironia que Eça faz neste seu romance e das inevitáveis referências a outras obras suas, ficámos a tentar descortinar nos diferentes candidatos a PM os mais parecidos com Abranhos, mas não conseguimos decidir-nos. Não é que ficámos com a impressão de que Zagalo estava certo quanto a não haver diferenças entre o partido que governa e os partidos que se lhe opõem?!

E agora calamo-nos e prudentemente vamos reflectir, porque amanhã assinamos em X.

O ProjectoLer recuperará o Direito de Antena em Outubro!


__________________________________________
[1] Palavra derivada do grego, cujo sentido geral é o dum discurso, em prosa ou verso, em louvor duma pessoa, acontecimento, lugar ou objecto. Desde a Grécia antiga, e sem interrupção até ao declínio da retórica no século XIX, o panegírico foi o mais puro expoente da oratória epidíctica ou demonstrativa. A função do panegírico foi sempre política. O objectivo era estimular nos ouvintes ou leitores o desejo de emulação das virtudes louvadas no discurso. Isto cumpria-se geralmente, colocando perante o receptor uma imagem ideal dele mesmo. Toda a ênfase do panegírico recaía sobre os valores que estavam supostamente na base da prática governativa da pessoa em causa. Por isso, João de Barros, um dos mais importantes panegiristas portugueses, sugeria que a eloquência laudativa se dirigia em geral aos homens que não mereciam louvor. É que os tiranos, detentores discricionários do poder, não podiam ser censurados ou criticados frontalmente, não apenas por causa das consequências nefastas daí resultantes para as pessoas dos autores, mas também porque isso não traria efeitos positivos sobre o curso da governação.

ALVES, Hélio, s.v. "Panegírico", E-Dicionário de Termos Literários, coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, (Setembro 2009).

domingo, 2 de agosto de 2009

Ainda a propósito de LISTAS...




Desta feita , a lista dos 'Cem melhores livros' de sempre , segundo a "Newsweek".


Citando a nossa fonte, o jornal "Expresso" de 4 de Julho, a lista terá sido elaborada da seguinte forma:


« Começámos por seleccionar 10 listas diferentes dos melhores livros que julgamos representar uma mistura ecléctica dos gostos dos leitores e não apenas uma lista limitada dos Grandes Livros do Mundo Ocidental. Para ser considerada, a lista tinha que ser de livros escritos em inglês ou traduzidos para inglês. As listas que seleccionámos vão desde as muito eruditas (a do St. John's College) às muito mais acessíveis (o Clube de Livros de Oprah e os livros mais vendidos da Wikipédia).»


O processo implicou a criação de uma base de dados , onde as diferentes listas foram cruzadas e cada livro pontuado individualmente, pelo que o livro com maior pontuação ocupa o número um da lista e assim sucessivamente , até ao centésimo.



Repara o "Expresso", e bem, que «as listas dos 'melhores' livros de sempre são como as sondagens: valem o que valem. No top-100 da "Newsweek", à subjectividade que qualquer escolha deste tipo sempre acarreta, juntam-se dois factores que lhe limitam o alcance e a utilidade: a desproporção de referências literárias anglófonas (81% dos títulos), que remete o resto do mundo a uma injustíssima quase inexistência, e o facto de alguns autores estarem representados por dois ou três livros. Para um europeu é incompreensível que estejam ausentes nomes como os de Camões, Cervantes, Balzac, Eça de Queirós, Oscar Wilde, Pirandello, Pessoa, Camus, Beckett, Calvino, Yasunari Kawabata, Elias Canetti, Julio Cortázar, J.M. Coetze, Orhan Pamuk....»



Nós reiteramos o valor relativo deste tipo de listas, mas respondemos 'sim' à pergunta com que o "Expresso" inicia este artigo: 'Já leu algum destes livros?'. E lemos o número dois da lista - 1984 de George Orwell, por coincidência também a segunda obra lida pelo 'clube'. Há mais uma dúzia de títulos que , provavelmente, serão futuros 'projectos' de leitura, mas só depois das merecidas 'férias' agostinhas.


O Clube cumpre a regra portuguesa de ir 'a banhos' em Agosto, mas sempre bem acompanhado com um dos cem melhores livros de sempre, ou outros quaisquer que partilharemos em futuros serões. Na calha, e como havia sido projectado numa longínqua 'lista' aqui publicada, está o nosso caríssimo Eça e o seu Conde de Abranhos.




BOAS LEITURAS E

BOAS FÉRIAS!