Boas Leituras!
http://www.elpais.com/articulo/opinion/bloguero/llamado/Saramago/elpepiopi/20091006elpepiopi_11/Tes
Uma ‘rentrée’ nunca vem só!
Na véspera do Outono, uma semana após o início das aulas e a meio da campanha eleitoral, também nós regressámos às leituras, esmiuçando (sim, confessamos que a maioria dos membros do nosso ‘nano micro mini’ clube de leitura decidiram o sentido do voto consoante a prestação dos diferentes candidatos no programa que os ‘Gato Fedorento’ apresentam, diariamente, na SIC) O Conde d’Abranhos, obra capital de Eça de Queiroz no que ao uso da ironia e da sátira concerne.
Juramos que não foi intencional esta escolha literária, pois quando decidimos ler “a mais contundente crítica romanceada (?) da intriga política constitucional” (J.Saraiva e O. Lopes) nada fazia supor que tal só acontecesse agora, nos pós ‘silly-season’ eleitoral. O nosso primeiro post prova a nossa inocência!
Como estamos a publicar estas linhas no dia de todas as reflexões, não iremos para além da análise da obra em causa e qualquer paralelismo com a actualidade política será mera coincidência!
Não podemos ler O Conde d’Abranhos sem ter em conta que o mesmo é, em primeira instância, uma paródia a um género ‘clássico’ – o panegírico[1]. Como tal, a biografia de Alípio Abranhos é-nos relatada pelo seu secretário – Z. Zagalo – narrador de dupla-face: aparentemente, o admirador embevecido e incondicional do Conde; essencialmente, a voz subtil da crítica à sua falta de carácter, personificando assim o ‘carrasco’ mavioso, tal como o entende João de Barros (ver nota de rodapé).
E eis que temos um Alípio oriundo de famílias humildes, instruído em Coimbra graças à fortuna da madrinha abonada, mas que renega as origens, envergonhado da rudeza dos modos paternos face aos tiques requintados da burguesia de quem, por força da ambição política, se torna conviva assíduo. Consegue com essa intimidade a conveniência de um casamento que lhe dá título e reconhecimento social e, apoiado pelas novas e influentes amizades, inicia um percurso que o levará ao poder.
Porque é no ‘circo político’ que o Conde mais se destaca, deixemos o rol de exemplos que Zagalo nos concede sobre a sua conduta (i)moral, para citarmos os momentos mais elucidativos quanto à sua ética:
- sobre o povo: «porque se há-de combater um monstro invencível, quando é tão simples iludi-lo»
- sobre a arte de ‘iludi-lo’ I: «Tal é a tradição humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um país com o aplauso do cidadão e em nome da Liberdade!»
- sobre a arte de ‘iludi-lo’ II: «Não podemos dar ao operário o pão da terra, mas obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no céu banquetes de Luz e de Bem-aventurança!»
- sobre a arte de ‘iludi-lo’ III: «Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente soberania ao Povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito. E quanto ao seu proveito…adeus, ò compadre!»
E, de facto, o ‘nosso’ Alípio Abranhos chega ao poder, embora ‘virando a casaca’, ou seja, mudando de partido, porque isso lhe permitia trotar para Belém, «repoltreando-se nas almofadas do poder!» Não hesitou em «passar-se com as suas armas da eloquência e a sua bagagem de saber para o campo inimigo. Ia fazer-se oposição!»
Explica-nos Zagalo que muito injustamente a «este grande acto político foi chamado uma indecente traição. Nada mais absurdo. Pergunto eu: que é trair? É abandonar os ideais de que se serviram, e passar, sem razão, para os ideais opostos que até aí se combatiam. (…) Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideias opostos?»
E o que se segue é a mais divertida lista de argumentos que tentam provar que não havia nem em Religião, nem em Moral, nem em Economia Política, nem em Administração, nem em Pedagogia qualquer diferença entre um e outro partido!
Afinal, e como um dos nossos membros frisou, não é de hoje que os partidos políticos são ‘uma pequena família incestuosa’!
O mais notável é que Alípio Abranhos conseguiu tornar-se ministro, embora tivesse sido, e segundo o seu fiel (?) secretário, um «avaro intelectual» por nunca ter exteriorizado as muitas ideias que, com certeza, tinha!
Após a troca de impressões sobre o magistral uso da ironia que Eça faz neste seu romance e das inevitáveis referências a outras obras suas, ficámos a tentar descortinar nos diferentes candidatos a PM os mais parecidos com Abranhos, mas não conseguimos decidir-nos. Não é que ficámos com a impressão de que Zagalo estava certo quanto a não haver diferenças entre o partido que governa e os partidos que se lhe opõem?!
E agora calamo-nos e prudentemente vamos reflectir, porque amanhã assinamos em X.
O ProjectoLer recuperará o Direito de Antena em Outubro!

BOAS LEITURAS E
BOAS FÉRIAS!

No romance, parece haver a preocupação de desmistificar a ideia de que os homens agem apenas instintivamente e que são mais decididos do que as mulheres. Afinal, eles também têm dúvidas e inseguranças e ‘até’ (sim, é uma mulher que está a redigir estas linhas) analisam as relações e suas implicações:
«Sentia falta de quê? Talvez sentisse falta de alguém (…) desviando-se do seu caminho para vir ter comigo, talvez um pouco arranjada, ou com um pouco mais de maquilhagem do que de costume, talvez mesmo ligeiramente nervosa; quando era mais novo, o facto de saber que era responsável por isso (…) fazia-me sentir pateticamente grato. Quando se está com alguém permanentemente, não se tem isso (…)»
Aqui abre-se espaço para a eterna discussão entre as antagónicas perspectivas masculina e feminina sobre as relações e os motivos que levam homens e mulheres a iniciá-las, mantê-las ou terminá-las:
«via que ela estava a perder o interesse que tinha por mim, por isso esforcei-me como um doido para recuperar esse interesse, e quando o recuperei, voltei a desinteressar-me »; «por outras palavras, sinto-me infeliz porque ela não me quer, se conseguir convencer-me que ela me quer um bocadinho, volto a ficar bem, porque então não a quero, e posso continuar à procura de outra pessoa».
Parece uma caricatura da atitude masculina comum… Será?!? (e vem-nos à memória a ‘teoria da triangulação’ do romance de Mário de Carvalho, anterior na nossa lista de leituras ‘projectadas’). A reforçar o teor algo narcísico das reflexões ‘deles’ em torno dos afectos, temos a seguinte tirada de Rob:
«Dez não é muito para um solteirão na casa dos trinta. Vinte também não é muito (…) Qualquer coisa acima de trinta, acho eu, já dá o direito de se aparecer no programa da Oprah sobre promiscuidade».
SOBREMESA -Música. Muita música.
Rob tem uma obsessão por ‘listas’. Ele e os seus dois amigos, que são também seus empregados na loja de discos de vinil quase falida (o que em parte se explica pelo facto dos dois empregados ‘correrem’ com os clientes, quando estes pedem discos ‘desajustados’, segundo a opinião sobranceira dos ‘experts’ de serviço), têm o estranho hábito de elaborar listas dos discos ‘top-5’ a propósito de tudo, pelo que muito da discografia dos anos 70/ 80 é revisitada, a par das relações falhadas de Rob. Aliás, para Rob a relação entre os discos e os ‘affairs of the heart’ é inextricável:
«não vale a pena fingir que qualquer relação pode ter futuro se as vossas colecções de discos são violentamente discordantes, ou se os vossos filmes preferidos nem sequer falariam uns com os outros se se encontrassem numa festa».
Ah, a denominação ‘Príncipe de Gales’ do doce que interrompeu a conversa sobre Rob e seus ‘dramas’ não é aleatória. Se quiserem saber qual é, perguntem ao Eduardo, o nosso ‘maitre’, mas adiantamos que está relacionada com aspectos do guarda-roupa de um certo príncipe.
DIGESTIVO – Depois de tanta ‘música’, parece que Rob descobre duas ou três verdades que revelam um certo equilíbrio entre a quantidade de gelo e de licor, pelo que deste copo tanto podem beber os ‘Robs’ como as ‘Lauras’:
«Concordo que é preciso conhecer uma pessoa nova para passar sem a antiga – é preciso ser incrivelmente corajoso e adulto para arrumar uma coisa só por ela não estar a funcionar bem».
E é também para ‘eles’ e ‘elas, mas sobretudo para ‘eles’, a dica sobre como conseguir atrair as mulheres, mesmo quando desprovidos de encantos especiais:
«Porque eu faço perguntas (…) Ainda há por aí bastantes egomaníacos à antiga, opiniosos e cheios de garganta para fazer uma pessoa como eu parecer agradavelmente diferente.»
