segunda-feira, 21 de novembro de 2011

E QUANDO NÃO HÁ TEMPO PARA LER... VÊ-SE!

Apesar de estar já distante o verão, voltamos a este ponto de encontro virtual para partilharmos as memórias do texto que nos serviu de pretexto para mais uma reunião, informal e sem ordem de trabalhos, do nosso 'projecto' de leituras, numa canicular noite de Julho...

... O Leopardo, Lampedusa

Não, não substituímos a palavra escrita pela dramatizada, mas abrimos uma excepção porque o sentimento de culpa de irmos a banhos sem dedicarmos um último pensamento, mais cliché, menos cliché , mais ou menos profundo , ao móbil dos nossos serões literários - a literatura, a obra e as palavras em que se sustentam os livros - corroer-nos-ia. Assim, munidos de pipocas (só são intoleráveis nas salas de cinema, mastigadas desalmadamente por quem foi ver o filme só por elas e não pela trama) e de curiosidade assistimos, na primeira fila, ao livro de Lampedusa feito filme por Visconti.

E gostámos! E, muito provavelmente, esta será apenas a primeira excepção de muitas outras!

Pese embora nos mereça mais do que o apontamento que aqui fica, não nos demoraremos em comentários... vai longe Julho.

Voltámos noutro verão...o de S. Martinho...

Até já!





quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Adoecer ou não adoecer? - eis a questão.

Elizabeth Siddal (musa/ modelo dos pintores pré- rafaelitas)


Quando escolhemos Adoecer para pretexto de mais um serão de ‘falatório literário’, o facto de ser o mais recente romance de Hélia Correia era tudo o que sabíamos sobre o dito. Hélia Correia correspondia a dois requisitos importantes: ser mulher ( critério que tem presidido às últimas escolhas bibliográficas, e qualquer semelhança com o sistema de quotas que garante a presença de mulheres na vida política do país não será pura coincidência, mas sobre machismos/ feminismos e outros ‘ismos’ discutiremos depois) e ser portuguesa ( não querendo persistir na questão do género, sublinhe-se que é a primeira escritora portuguesa a que nos dedicamos).

Às primeiras páginas este Adoecer não entusiasma, e não se sabe bem identificar a razão. Não é propriamente o início tumultuoso da narrativa feita de constantes analepses e prolepses; não é bem a genealogia dos implicados cujas relações familiares e sociais confundem a princípio; nem tampouco o uso da língua e dos tropos da retórica que a escritora utiliza no exercício ficcional. E, no fim de contas, que é como quem diz da leitura, é talvez essa estranheza que, não sendo imediatamente encantatória, acaba por nos cativar. É um romance que exige paciência, concentração, tempo, que é algo que cada vez mais escasseia, ao ponto de termos começado a ler Adoecer em Março e só três meses depois conseguido adentrarmo-nos na obra o suficiente para trocarmos opiniões.

O efeito que a leitura desta biografia romanceada sobre a figura de Lizzie Siddal tem em nós pode ser ilustrado pela seguinte citação: «As chuvas deslizaram pelas pedras como se as respeitassem. Com excepção da que assinala Lizzie Siddal. O texto que o buril afundou nela ganhou alguma qualidade orgânica. Águas e águas se depositaram, chamando musgos para a reprodução . Está deitada , na terra, a sua laje, muito verde, marcando uma diferença na família que nunca foi sua».

Assim acontece connosco, que ao darmos à obra a atenção e o tempo que nos exige (e merece) nos vamos afeiçoando à estranheza que a personagem encerra. E porque marca a diferença numa sociedade, numa irmandade artística (os Pré-Rafaelitas) e numa família, e em todos esses diferentes contextos é mais ou menos subtilmente hostilizada, sentimo-nos quase como Ruskin, obrigados a protegê-la e a admirá-la. O misterioso fascínio que Lizzie exerce sobre aqueles que a rodeiam encontra paralelismo no poder de atracção que Adoecer exerce sobre o leitor: inicialmente tímido e discreto, mas que gradualmente nos prende e se aloja qual excrescência fúngica na pedra onde as águas se depositaram.


Boas e 'doentias' leituras!

terça-feira, 12 de julho de 2011


Memórias das Memórias de Adriano


A obra inaugural das leituras que projectamos para 2011 não podia ter sido mais acertada. Yourcenar convida-nos a revisitarmos um tempo e um espaço de que ouvimos falar nos primeiros anos do estudo da História, na escola. A cultura greco-romana; a grande, despótica e promiscua família dos deuses, elaborada à imagem e semelhança dos homens; os humores , amores e desamores dos patrícios romanos; as lutas fratricidas pelo poder; a importância de um certo olhar estético; o culto do belo e o ideal hedonista; a morte, de tudo isto nos dá conta Adriano ao rememorar a sua biografia como se fosse um espectador da mesma e não o principal actor.
É , de facto, esse o propósito do projecto literário de Yourcenar, tal como a autora nos dá conta :
«Tomar uma vida conhecida, acabada, fixada (tanto quanto é possível sê-lo) pela História, de forma a abranger num só olhar toda a curva: mais ainda, escolher o momento em que o homem que viveu essa existência a avalia, a examina e chega a ser por um instante capaz de a julgar. Fazer de maneira que ele se encontre perante a sua própria vida na mesma posição que nós.»

No caso dos membros deste humílimo clube, a posição a manter é de expectativa até ao próximo serão, desta feita na companhia de uma escritora portuguesa.

Até já!



quarta-feira, 30 de março de 2011

Pelos Trilhos de Adriano


Brevemente actualizaremos o blogue com as observações sobre

esta obra magistral de Yourcenar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Palavras de Mulheres


Reparámos, por acaso, que em mais de um ano de conversas nocturnas sobre livros e autores, não tínhamos ainda discutido qualquer obra escrita por uma mulher. A fim de repararmos tal lacuna, resolvemos adoptar como critério de selecção de futuras obras o da sua autoria. Assim, eis-nos num frio serão de Dezembro, debruçados sobre o romance inaugural do desfile de muitos assinados por mulheres escritoras.

HERTA MULLER - Tudo o que eu tenho trago comigo

Dezembro de 2010

Concordámos que esta obra não será a leitura mais 'adequada' à quadra natalícia, onde cabem melhor contos senão felizes, pelo menos inspiradores, daqueles que deixam espaço ao sonho e à esperança.
Mas é de crueza, de frialdade e da precariedade da vida de que Herta Muller nos dá conta neste seu romance.
Onde? Num campo de trabalho russo.
Quando? No pós-guerra.
Quem? Um jovem pertencente à minoria alemã da Roménia.
O Quê? Enfrenta o seu destino.
Como? ... Como sempre frisamos, os comentários e as citações que aqui partilhamos pretendem suscitar a curiosidade, não resolver a leitura; assim, o 'como' desta história é o que cada leitor descobrir, porque nunca descobrimos exactamente o mesmo.

De qualquer forma, e em jeito de síntese, a leitura de Tudo o que eu tenho trago comigo deixa-nos um sabor metálico na ponta dos dedos, um frio siberiano na pele, um nó no estômago e uma ideia algo incómoda - o horror pode gerar beleza. Mas isso só alguns espíritos - como o de Herta Muller - conseguem.


«Peguei nele na mão e acariciei-lhe a barriga. Ele bufou e mordeu-me o dedo mindinho. Não largava, Então, vi sangue. Então, apertei o polegar e o indicador , acho que com toda a força, e foi no pescoço. (...) O gatinho, porque estava morto, tinha-me apanhado a matar. Que não tenha havido intenção, só piorava as coisas. A ternura monstruosa enreda-se na culpa de forma diferente da crueldade intencionada. Mais profunda. E mais longamente. (...)


A citação ilustrará (ou nem por isso?!) as sensações orgânicas descritas anteriormente para caracterizarem esta experiência de leitura, mas caso não bastem registam-se os títulos de alguns capítulos do romance: 'Cimento'; 'As mulheres da cal'; Das pessoas severas'; Choupos negros'; 'Do anjo da fome'; 'Aguardente de carvão de pedra'; Do carvão'; 'Da areia amarela'; 'Tijolos de escória'; 'Dos tédios'; A gente vive. Vive só uma vez'; 'O beijo de lata'; etc.

No entanto, também há um assomo de humanidade de quando em vez, por mais duro e agreste que seja o contexto onde essa humanidade acontece: «Uma pessoa pode transformar-se num monstro quando deixa de chorar. O que me impede de sê-lo, se é que já não o sou há muito tempo, não é muita coisa, quando muito a frase: Eu sei que voltas.»

Voltaremos também nós, já em 2011...
Até lá, boas leituras! Bom ano novo!




segunda-feira, 27 de dezembro de 2010


Os Filhos da Meia-Noite,
Salman Rushdie

29 de Setembro-
12ª 'Leitura'

Sabíamos ser necessário um fôlego maior para ler aquela que é considerada a obra prima de Rushdie e uma das mais importantes da contemporaneidade literária (foi Prémio Booker em 1981; Booker dos Bookers em 1993, prémio com que voltou a ser distinguida após auscultação aos leitores em 2008). Assim, levámo-la na bagagem de férias de verão e foi com ela que assinalámos a rentrée do nosso 'clube'.

A noite estava ainda morna, no final de Setembro, pelo que à volta da mesa da esplanada e sob o efeito da cafeína, fomos relembrando os episódios fantásticos da vida de Saleem Sinai e da sua família, entrelaçados com a História da própria Índia. Viajámos pelo exotismo dos lugares descritos; contemplámos a mestria do autor no domínio dos materiais da escrita; o exercício metaficcional; a pretensão concretizada de usar o código de modo singular; a forma peculiar de manipular as coordenadas espacio-temporais, ao ponto de tornar próximas e familiares realidades culturalmente tão distantes como aquelas da Índia e do Paquistão:
Um nariz-aspirador? Lirismo em torno de uma 'bosta'? Um jogo intitulado 'acertar-na-escarradeira'? Um herói com dons telepáticos que é também uma espécie de 'bobo'?
E a lista de 'excentricidades' podia alongar-se em uníssono com a voz do narrador:
«a promessa de exotismos futuros sempre me pareceu o melhor dos antídotos para as decepções presentes!»

Também nós nos poderíamos alongar no comentário à obra magistral de Rushdie, mas como sempre fazemos questão de frisar, as notas que aqui partilhamos servem apenas como pretexto para evidenciar o trabalho operado sobre e com as palavras, o impulso criativo, o 'engenho e a arte' dos autores e criadores literários que vamos projectando ler.

«E aprendi a primeira lição da minha vida: ninguém pode olhar o mundo de frente se tiver os olhos constantemente abertos»

Até à próxima ... página.

Boas leituras!

domingo, 26 de dezembro de 2010


'E se perdêssemos a face humana? ou
o Complexo de Édipo revisitado'
Junho de 2010 -
11ª Sessão de leituras 'projectadas'

É com considerável hiato temporal desde o serão dedicado à leitura do Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar que registamos aqui as impressões trocadas sobre essa obra singular de Mishima. Por isso, talvez o relato desse par de horas corresponda melhor ao comentário subentendido do que ao comentário real. Quer isto dizer que onde a memória falhar, acudirá a ficção.
Assim, 'se bem me lembro', era uma noite 'pós-são joanina' e Mishima foi servido muito ocidental e 'alentejanamente' em prato raso ornamentado com secretos de porco preto e 'baquicamente' acompanhado. Cumprindo a tradição que a época exige 'homenageámos' os santos ditos populares, degustando a fêvera do suíno e tentando chegar ao tutano do romance de Mishima. Neste, apesar da forte presença dos códigos orientais da honra, da disciplina e da ordem, consegue-se extrair aquele sabor agridoce , intemporal e transversal às diferentes tradições culturais, no que diz respeito à descrição dos acessos de cólera que instigam a imaginação dos adolescentes de qualquer parte do mundo, contra os adultos (no caso, o adolescente é um jovem órfão de pai que vai compilando as fraquezas do candidato a seu padrasto, que é então o adulto 'bode -expiatório' dos «complexos de inferioridade, aspirações não realizadas, frustrações e ressentimentos» dos pais e dos adultos em geral).

A narrativa centra-se na figura de um adolescente , Noboru, e do bando a que pertence , cujo objectivo é lutar contra aquilo que os torna essencialmente humanos: a paixão e suas ambiguidades.
Desapaixonarem-se, perderem a afectuosidade, eis o propósito dos adolescentes que aspiram a conseguir instaurar uma nova ordem que ponha cobro ao caos social e ético vigente, de modo a que o ser humano jamais sinta infelicidade, solidão ou desapontamento... nem o seu contrário: «ficar curioso seria visto como uma estupidez, uma vez que estavam a praticar a 'ausência de paixão absoluta'.»
Sucintamente, a personagem central é-nos revelada nos seguintes traços: «Aos treze anos, Noboru estava convencido do seu próprio génio (cada um dos outros do grupo sentia o mesmo) e tinha a certeza de que a vida consistia em alguns símbolos e decisões simples, que a morte ganhava raízes no momento do nascimento (...) que a reprodução era uma ficção; logo a sociedade era também uma ficção; que os pais e os professores, por serem pais e professores, eram culpados de pecados terríveis. Logo, a morte do seu pai quando ele tinha oito anos, fora um incidente feliz, algo de que estar orgulhoso».

No fundo, Mishima explora as contradições da alma humana, neste romance polarizado pelos adolescentes que recorrem a 'rituais de passagem' da infância para a idade adulta, sacrificando o outro pólo - um marinheiro caído em desgraça aos olhos cruéis e desapiedados dos jovens, cuja agilidade intelectual sem o freio da experiência de vida conduz a conclusões 'arrepiantes' como as que se transcrevem, fundamentando a utilidade da brasa que a sabedoria popular evoca naquele adágio que recomenda que se guarde o melhor tição para o mês de S.João:
«Se não agirmos agora, nunca seremos capazes de roubar, ou matar, ou fazer qualquer das coisas que testemunham a liberdade de um homem. Acabaremos a vomitar mentiras, passaremos os dias a tremer de submissão, no compromisso e no medo (...) e um dia casamo-nos e temos filhos, e depois tornamo-nos pais, a coisa mais odiosa que existe à face da terra!»

Bem... a adolescência é só uma fase...passa, certo?!

Boas leituras...populares, santas ou profanas, mas , preferencialmente, apaixonadas.